O morro não tem vez – e nem terá

Se no resto do Brasil a palavra ‘morro’ se refere a favelas e ao povo que vive às margens da cidade, em Canaã, representa uma estranha necessidade de vencer eleições a qualquer custo

 

Canaã dos Carajás respira os ares da mais importante eleição de sua história. Na roda viva dos nossos dias, as estranhas e contraditórias sensações que envolvem a necessidade de escolher um ou uma prefeita e 13 vereadores: dúvidas, medos, desconfiança, fé, esperança, tristeza, tédio. Somente a democracia, desordem inventada para dar sentido ao caos, é capaz de trazer tamanho tumulto às nossas vidas. Daqui a 30 dias, 40 mil eleitores terão que escolher entre cinco candidatos a prefeito e entre 203 para o parlamento municipal – uma bagunça permitida pelo processo democrático.

A rica e peculiar história de Canaã dos Carajás, no entanto, nos dá uma certeza: o morro não tem vez – e nem terá. O pioneirismo de Canaã, engrenagem fundamental desta história, sabe bem que “dar vez a este morro” é permitir que um projeto de poder, que a sede por vingança e que as andanças de forasteiros determinados a vencer as eleições locais a qualquer custo destruam tudo o que já foi construído. Os primeiros cidadãos de Canaã, pessoas que construíram essa terra na base do suor e de calos nas mãos, compreendem que tanta prosperidade não pode ser entregue nas mãos do retrocesso. Este morro, como toda legítima oposição, deve até ter voz, mas não, em nenhuma hipótese, vez.

Se no resto do Brasil, o “morro” da canção de Tom e Vinicius representa as favelas, a gente que vive às margens dos grandes centros, em Canaã justamente o oposto está representado. Ninguém gasta energias para subir um morro à toa – neste morro, ironicamente, ninguém subiu pela vista. O morro representa a necessidade vital de ganhar as eleições, o desespero para encontrar em si uma razão para existir – este morro não tem razões para ser, a não ser ter a chance de administrar uma das maiores e mais prósperas prefeituras do Brasil.

Os 40 mil canaenses que sairão de suas casas no dia 15 de novembro precisam fazer uma escolha definitiva: não dar vez ao morro ou aos impropérios de alguns de seus maiores apoiadores. O canaense, de certo, não dará sim ao forasteirismo, à ascensão da megalomania por poder. O problema, talvez, nem seja quem subiu o morro, mas o morro em si ou mesmo quem construiu o morro.

Uma cidade que conhece bem sua própria história, que sabe de onde veio e aonde vai chegar, vai buscar opções melhores. O morro não tem vez – e nem terá em Canaã.

 

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