Denúncia: softwares na internet podem produzir falsa audiência em lives no Facebook

Três fatores podem contribuir para números falsos em lives políticas no Facebook: dinheiro, sede pelo poder e técnicos de informática competentes. Na corrida pelo voto, vale a pena ludibriar para conquistar?

 

Em terras e tempos de falsas informações, quem aposta tudo, inclusive a dignidade, para chegar ao poder, encontra um prato cheio para saciar os seus desejos. O período eleitoral, um bang-bang onde os tiros são reputações, é a exata interseção de elementos perigosos dos nossos dias: almas sedentas por poder, dinheiro brotando dos poros e instrumentos que servem de escada para a chegada a tronos de ferro.

A internet, terra quase sem lei, oferta uma infinidade de ferramentas que podem aproximar aspirantes ao poder de seus potenciais eleitores. As transmissões ao vivo são, talvez, um dos maiores avanços trazidos pelas redes sociais. Se antes links gigantescos de emissoras de TV e dezenas de profissionais eram os únicos capazes de levar a espectadores cenas em tempo real, agora qualquer aparelho utilizando internet 4G logado em uma conta do Facebok ou Instagram é capaz de fazer o mesmo.

Sabendo disso, pré-candidatos em todo o Brasil estão se comunicando em tempo real cada vez mais. Alguns com grande estrutura, outros nem tanto, transformam o diálogo com o eleitor em algo mais abrangente e instantâneo.

As lives no Facebook estão dando o tom de campanhas eleitorais desde 2018. No atual ano, a pandemia do novo coronavírus tornou as transmissões ferramentas indispensáveis em pré-campanhas para prefeito e vereador. As audiências nas lives, inclusive, estão sendo consideradas termômetros eleitorais: quem tem mais pessoas acompanhando em tempo real, está mais forte na disputa. Na teoria, os números são confiáveis, visto que o Facebook sempre foi reconhecido como uma rede social com boa segurança criptográfica.

No entanto, enquanto os milhares de profissionais do Vale do Silício lutam para evitar bugs no sistema e tornar a rede social a mais confiável do planeta, milhares de cibercriminosos utilizam o “lado B” da internet para ganhar dinheiro. Muito dinheiro.

Softwares desenvolvidos por estes criminosos tem o condão de adulterar a audiência destas lives. Ora, se o candidato com mais pessoas acompanhando suas propostas em tempo real é o mais forte na disputa, a manipulação dos números de audiência das transmissões pode ser uma alternativa para a sede por poder de alguns.

Contrariando qualquer princípio e integridade, há candidatos utilizando destas ferramentas para ludibriar potenciais eleitores. Com dinheiro sobrando, o político contrata um competente técnico de informática, que será o responsável pelo jogo sujo.

O passo a passo é até mais fácil do que se imagina:

1 – A live tem início.

2- Durante alguns minutos, pessoas reais assistem à live. Esta é a chamada audiência orgânica.

3 – Em posse de um cartão de crédito com limite alto, o técnico compra um dos pacotes ofertados em sites americanos.

4 – Em posse do seu pacote para audiência fake, o técnico digita o link da live em um espaço próprio do software. A mágica está feita – os números sobem de forma milagrosa.

5 – O software também se encarrega de gerar comentários e reações positivas ao vídeo, bem como números falsos de alcance e visualizações.

O beabá da trapaça pode ser encontrado facilmente no YouTube. Veja dois exemplos nos links abaixo:

O conteúdo é disponibilizado em inglês, mas é, relativamente, de fácil compreensão. Qualquer técnico de informático com conhecimento básico é capaz de operar o software e manipular as informações.

Depois do fim da live, o papo em grupos de Whatsapp se encarrega de comentar a esplendorosa audiência obtida pelo tal candidato. Tudo, no entanto, não passa de uma grande mentira. O detalhe é que o cliente determina quantas pessoas ele quer na transmissão ao vivo. O cartão de crédito é o limite para os sonhos delirantes de poder dos corruptos.

Abaixo, links de alguns softwares a venda na internet.

 

Canaã dos Carajás

A 50 dias das eleições, trapaças do tipo podem decidir o pleito. Em Canaã dos Carajás, há denúncias ainda não apuradas de que softwares do tipo já estão sendo usados em lives políticas. A suspeita é que empresas de soluções tecnológicas vendem a prestação de serviço, manipulam as lives, enganam o público e engrandecem os políticos.

Além disso, há também pacotes para turbinar as redes sociais. É possível saltar de uma quantidade ínfima de seguidores para dezenas de milhares em poucos dias. Novamente, o cartão de crédito é o limite para os devaneios. Sim, uma rede social com números robustos é mais atraente.

A esperança, no entanto, é que propostas definam as eleições de 2020, não audiências manipuladas. Apesar de toda a influência negativa de softwares do tipo, ao fim, robôs ainda não votam e o gesto de digitar números nas urnas só é possível por mãos humanas, mãos que ainda podem escolher qual o melhor caminho para uma cidade.

 

(Foto: Jessé Giotti / Agencia RBS)

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