Epitáfio de um verdadeiro músico em Canaã dos Carajás

Achei que Canaã, terra formada por gente de todo canto, reservaria espaço para um músico de verdade como eu. Mas não. Fui sepultado com as notas desafinadas de incompetentes cantores sertanejos

Não é mimimi propriamente dito. Ou talvez até seja. Reservei este espaço para um desabafo que não coube em uma vida inteira. Sempre acreditei que música era uma arte que requeria dedicação, talento, esforço… Sempre compreendi que melodias precisavam ser bem compostas, bem harmonizadas, que letras tinham de ser belas e conter traços de poesia.

Mas não.

Fui sepultado vivo ao ver a arte que tanto amei ser preterida pela incompetência de sertanejos cada vez mais desafinados. Canaã dos Carajás é uma cidade de pessoas de todo o canto do Brasil, mas um município tão rico vive de dar palco para cantores e cantoras de apenas um segmento musical. Seria Canaã a cidade do monogosto? Não sei.

O caso é que eu, músico de verdade, padeci em vida ao ver no que transformara a arte da qual mais acredito em um emaranhado de coisa nenhuma. É uma repetição infernal de mais do mesmo. Faça um exercício: vá em bares da cidade entre quinta e domingo e me diga se os repertórios não são rigorosamente os mesmos. Os “cantores” mudam, mas as covers são iguais.

Embaixo, as mesmas pessoas dançam as mesmas notas mal encaixadas.

Cansei e morri. Os ignorantes pseudo-cantores sertanejos me mataram com as suas desafinações, notas mal colocadas em violas que não são caipiras. Me irritei com a forçação de barra das cachaças nos palcos, com as lives de mau gosto, com a putaria que fizeram a arte se tornar.

Desculpem o palavreado, mas nada importa mais… Palavras de um morto.

E não se enganem: esses ignorantes só existem porque há mercado para eles. A culpa é de todos.

Mas não liguem para este epitáfio. É apenas mimimi de quem já nem está por aqui.

(Ilustração: A morte da música brasileira)

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *