Carta ao amigo Zé Newton: a esquerda desertou da sua tarefa

Canaã dos Carajás, 19 de maio de 2019

 

Querido amigo e professor José Newton, decidi escrever esta carta, pois há muito não nos falamos. Tenho o seu número e você o meu, inclusive aplicativos de mensagens instantâneas, mas não precisamos dessa troca frenética de cumprimentos. Não somos este tipo de amigos.

Antes de mais nada, perdoe-me a formalidade em falar “aplicativo de mensagens instantâneas”, mas nenhuma empresa de mensagens instantâneas patrocina este blog; por isso, não acho justa essa divulgação.

Perdoe-me também, caro amigo, a publicização desta carta, mas acho que o conteúdo deste texto é público, notório e precisa ser dito. Caro amigo, a esquerda desertou do seu papel – você sabe disso, não é mesmo? É flagrante que nos perdemos no caminho, é inegável que estamos desmoralizados há tempos. Tem ideia, amigo, que, depois de 20 anos, perdemos uma eleição? Fosse uma derrota para direita, tudo bem. Mas perdemos para uma caricatura do extremismo, amigo.

Mas não. Essa carta, caro José Newton, não está sendo escrita para chorar as pitangas. Preciso lhe contar e refletir sobre um fato: a desigualdade social voltou a crescer no Brasil. Acredito, professor, que jamais chegamos perto do ideal, mas não poderíamos, em nenhuma hipótese, aceitar retrocessos – e estamos aceitando calados. A nobre tarefa da esquerda, professor, como você bem sabe, era lutar por uma sociedade econômica mais justa.

E a esquerda desertou desta tarefa. Nos tornamos, professor, insuportáveis nas redes sociais e figuras mudas no grande palco da vida. Nem estou falando de revoluções, de luta armada, nada disso. Só estou falando da velha e boa política de defesa daqueles que mais precisam. Enquanto a gente não reencontrar essa velha essência, professor, precisaremos engolir o choro calado. Não sei, caro amigo, se “apesar de Bolsonaro, amanhã há de ser outro dia”, não sei. A política é feita de ciclos e o ciclo que envolve esse suposto conservadorismo moral parece longe de ter fim, caro amigo.

Se não mudarmos, precisaremos aceitar muitas e muitas derrotas. E eu, velho amigo e professor, já não estrutura para lutar por isso, não deste jeito. Assim não dá.

Caro amigo, finalizo esta carta, lhe contando das boas novas da Terra Prometida – a Canaã. Passamos dos 400 casos confirmados de Covid-19, temos seis mortos e um decreto de lockdown – isso sem falar nos dias mais longos e noites mais tristes. Já não há samba no escuro, professor, mas um grito contido e espero que o senhor saiba do que estou falando.

Saudosos abraços a Ana, Joaquim e você. Quando tudo passar, estaremos juntos novamente.

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