O amor de um comunista e uma liberal em Canaã dos Carajás

Se conheceram em um protesto contra a incontestável tirania das Lojas Americanas em Canaã. Ele, do lado de fora com megafone na mão, barba por fazer e frases decoradas de um livro qualquer. Ela saía da loja com um livro do Primo Rico. Bateram boca, trocaram ofensas… “Burguesinha metida!” ele gritou. “Comunista vagabundo! Vai pra Cuba, oh, caralho!” gritou ela. “Me dá a passagem!” provocou ele. “Vai trabalhar, compra uma e nunca mais volta, maconheiro!”

Foi amor à primeira vista.

Cidade pequena, nem 50 mil habitantes tem essa Canaã. Se viam em todos os lugares. Ele decidiu estudar pra arrumar emprego. Foi se matricular justo na faculdade em que ela trabalhava.

“Só pode ser sina!” ele falou.

“O que deseja, senhor? Posso ajudar?” atendeu ela, de cara fechada, porém com toda a educação que ainda tinha em si.

Sem projetar nada, sem planejar coisa alguma, os dois desafetos começaram a tomar café juntos todas as tardes. Ela ajudava ele a estudar. Vez por outra, surgia uma discussão bem superficial sobre sistemas econômicos que não funcionavam.

“Não tem como negar as mazelas do capitalismo…”

“O socialismo todo é uma mazela, cretino”

Foram as palavras trocadas depois do primeiro beijo.

Decidiram não se desgrudar nunca mais. Aos poucos deixaram de falar sobre Lula ou Bolsonaro, Trump ou Sanders, Lacalle Pou ou Pepe Mujica.

Com o tempo, ele entendeu que o sistema que sonhava era uma utopia completa. Ela percebeu que nem todo comunista queria a desgraça do povo. Ela percebeu que Marx não era um sujeito burro e ele aceitou que Smith tinha lá a sua inteligência.

Foram morar juntos. Depois, ele a pediu em casamento e ela aceitou.

Foram vistos juntos nas Lojas Americanas comprando uma TV nova para a casa deles, que, por coincidência ou não, fica no Novo Horizonte. Hoje em dia, vez por outra, até fumam maconha juntos.

Nada é mais revolucionário que o amor.

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