Nasci em março de 1991, há quase 29 anos. O meu irmão, Kaylonpatryck, em julho de 92. Ou seja, quando completei um ano de existência, minha mãe já sabia o sexo do meu primeiro irmão. Acidente, creio eu, pois ninguém planeja criar dois filhos em um espaço tão pequeno de tempo. Deram pra ele um nome com uma letra a menos que o meu; acidente também, acredito. Este, proposital.

Não tenho memórias da minha vida sem o Kaylon, ou Patryck, ou Kiki, como eu o chamava quando pequeno. A primeira lembrança dele que me vem a mente é a sua força e coragem descomunal. Eu, o mais velho, era atormentado por um grupo de crianças na escola. Lembro de um dia, quando ele tinha quatro ou cinco anos, em que pedi a sua ajuda para enfrentar os pequenos trogloditas. Nunca saiu da minha memória a imagem dele enforcando o garoto mais velho do grupo com uma mão e batendo a cabeça dele contra uma parede. Ninguém nunca mais mexeu comigo.

Em outro dia, quando já éramos mais velhos, lembro de uma tábua que caiu sobre meus pés. Por conta da posição, não consegui sair daquela armadilha. Não chamei pelo meu pai ou minha mãe; chamei por ele. O jovem destemido surgiu em alguns segundos, retirou a tábua e me libertou. Nunca o agradeci por isso, mas foi inesquecível.

Quando eu soube que seria pai, há oito anos, tive medo. Corajoso tal qual meu irmão era, ficou do meu lado e disse que tudo ficaria bem. Lembro da forma como aquilo nos aproximou mais, mesmo já não morando juntos. Poucos dias depois, um tijolo caiu na minha cabeça. Não senti dor, mas o sangue jorrou. Meu irmão atravessou a cidade comigo e me levou ao hospital – me salvou de novo, eu diria.

Há quase quatro anos, o Kaylon se casou com a Greicy. Os dois – que parecem ter sido feitos um pro outro – são felizes e vivem na paz que todos deveriam ter.  Há três meses, a Laura, primeira filha dos dois, nasceu. Eles, agora, parecem ainda mais ligados um ao outro, mais felizes, mais prontos para enfrentar o que for, quando vier.

Ao contrário de mim, ele pareceu não ter medo quando descobriu que seria pai. O meu irmão, de casca dura tal qual é, aceitou o desafio proposto e encarou tudo de frente, de peito aberto e aprende todos os dias a ser o melhor pai do mundo. Diariamente, feliz e realizado, o Kaylon inunda os grupos da família com fotos da Laura, que, com apenas três meses, já tenta se sentar sozinha.

Fiquei pensando nos medos que tive na vida. Nos valentões que me surravam na alfabetização, nas tábuas que caíram sobre os meus pés, nas responsabilidades que adultos têm… Só posso ser grato àquele menino que me ensinou – e que ainda me ensina – que não há porque ter tanto medo do mundo, que os problemas se resolvem e que as coisas são como precisam ser.

É inegável não pensar no tempo – envelhecemos, é claro, e tá tudo bem, vamos continuar. Não há razões para se ter medo do futuro ou do presente, mas é preciso entender o que o passado quer nos dizer. Sobre nós, ele diz muito: brigas, socos trocados, confidências, pazes, a vida que segue tal qual rio.

Obrigado, irmão mais novo, por tirar aquela tábua de cima dos meus pés. Sua força descomunal salvou minha vida e vai melhorar o mundo pra Laura.

 

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