Um dia a gente vai rir de tudo isso, garantiu o primo aristocrata

O primo aristocrata, de vestes elegantes, de risos fáceis, de mãos limpas, de textos brilhantes, branco, garantiu ao primo-preto-peão que tudo ia ficar bem. Que um dia eles ririam de tudo o que se passou. Que viajariam juntos, pois trabalhavam juntos para garantir que no futuro aquilo se tornaria realidade.

O primo aristocrata era convincente com as palavras; fizera aulas de oratória por muitos anos e dominava, como poucos, a arte de convencer alguém de que as coisas ficariam melhores. O primo aristocrata lançou palavras ao ar e disse ao primo-preto-peão que aqueles dias na carvoaria, que aquela fumaça insistente, que os atrasos de pagamento, que as condições análogas à escravidão eram coisas passageiras. O primo-preto-pobre-esfumaçado-fodido-cansado pouco sabia ler e se apegou à esperança de que haveria dias melhores.

O aristocrata, influente deputado, capitalista convicto, sabia tudo sobre Adam Smith e Von Mises e, com palavras de afeto, garantiu ao primo-preto-pobre-esfumaçado-fodido-cansado-iletrado, seu subordinado, que tudo ia ficar bem. Não havia razões, explicou o primo aristocrata, para reclamar da água com lodo que era servida. Ao fim, tudo ia ficar bem.

Ao fim do mês, o primo aristocrata, de bolsos cheios explicou que parcelaria pagamentos, visto que os rendimentos estavam a baixo do esperado e pediu mais empenho da pretalhada-esfumaçada. Feliz, feliz ninguém era, disse o ricaço, figuraça do planalto que, de mesadinha em mesadinha, apodrecia de tanta riqueza.

Doente, cansado, esfomeado, o primo-preto-pobre-que-não-era-otário decidiu que era hora de rir de tudo isso. Com uma foice na mão, surpreendeu o primo-aristocrata no meio de um sorriso. Com um golpe na jugular, o sangue jorrou. Agonizando na hora da morte, o primo-aristocrata pediu água. O primo-preto-agora-patrão lhe deu água com lodo para beber.

Tomou para si um violão e cantou Guantanamera enquanto ria, enfim, de tudo isso.

 

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