‘Pai, não sei se estou pronta pra ter sete anos’, diz Maria com ar de preocupação

Sem ser questionada, minha filha desabafou sobre suas preocupações na véspera da data em que comemora sete anos de vida. ‘O que eu devo fazer, papai?’, perguntou. ‘Não sei, filha… Com 28, ainda estou aprendendo’. ‘Meu Deus’, lamentou ela

– Pai, não sei se estou pronta pra ter sete anos – disse uma preocupada Maria Luísa quando a busquei na escola hoje, 21 de outubro, véspera do seu aniversário.

Gargalhei com total desrespeito à sua legítima angústia.

– É sério! O que devo fazer, papai? – perguntou séria.

– Não sei, filha… Com 28 anos, ainda estou aprendendo – respondi levando em conta sua dúvida.

– Meu Deus – ela murmurou revirando os olhos com impaciência.

Não ter as respostas para o que se fazer não parece ser uma coisa típica da minha filha. Lembro que ela chegou numa segunda-feira, abrindo ciclos. Chorou quando necessário e também chorou quando, dona de si, decidiu que não gostava de dormir à noite – péssimo hábito que tem até hoje; não o choro, a falta de vontade de dormir.

Ela sempre soube o que queria, sempre soube o que fazer.

Com seis meses, falou a primeira palavra: ‘ata’, em referência à cachorrinha da vó dela que se chama ‘”Ayka”. Com sete, deu os primeiros passos. Confesso não lembrar quando ela me chamou de pai, mas sei que foi logo; bem logo.

Também logo ela aprendeu a cantar, falar, usar o vaso, dispensar fraldas, correr, teimar, brincar, tomar banho sozinha, perguntar, escrever, ler, desbloquear o celular… Minha filha nunca foi insegura em relação a nada.

Diante da revolução dos sete anos, no entanto, ela se propôs uma reflexão. “Estou pronta para ser mais velha?”, “Como vou lidar com o peso dessa nova responsabilidade?”, “O que muda na vida de uma pessoa com sete anos?”… Fico imaginando as dúvidas indo e vindo na cabeça dela.

Ainda no mesmo dia, ela me falou: “Vou escalar uma árvore bem alta, papai!”. “Não vai”, respondeu o pai protetor. “Mas é quando eu for adolescente!” respondeu ela com certa rispidez. “Não vai!” retruquei. “Você vai ter que me obedecer pro resto da vida” completei.

Ouvi a jovem de quase sete anos dizer baixinho: “Rum!”. Pensei em brigar, mas deixei quieto. Achei mais engraçado do que afrontoso.

Filha, o tempo passa pra todo mundo. As coisas não vão mudar absolutamente nada em 24 horas. No dia 22 de outubro, somente um número vai mudar e você continuará sendo a mesma Maria de sempre; nem tem porque se preocupar.

O seu questionamento, no entanto, é legítimo. “O que fazer de agora em diante?” Confesso não saber direito… E quem sabe? Quem sabe como será o amanhã? Queria eu, Maria, poder te entregar as respostas pra todas as suas perguntas, mas não posso. Em poucos anos, inclusive, você terá mais respostas para as perguntas do universo que eu, o que será maravilhoso. Anseio – ansioso como sempre – por isso.

Ainda assim, filha, quando você tiver mais respostas para as suas perguntas do que o seu pai, novas dúvidas surgirão. A maioria das perguntas, saiba desde já, continuará sem resposta e não se aperreie por isso, não se entristeça; a vida é um eterno entrelaçar de incertezas, um mar sem fim de questionamentos que ninguém pode responder.

Mas, olha bem, Maria, mesmo quando faltarem respostas pra você, mesmo quando a ansiedade bater, mesmo quando você for mais velha e já tiver sete anos, tudo vai ficar bem de uma forma ou de outra; as coisas se ajeitam, filha, nem sempre bem como a gente quer, mas elas vão se ajeitando e, acredite, a gente vai se acostumando e entendendo que certas coisas são necessárias.

Perdoe o seu pai pessimista, filha; perdoe! Mas quando você já for velha e tiver, como ele, 28 anos, vai compreender que às vezes é necessário se conformar com a ausência de certas respostas. O tempo, no entanto, minha filha, é um santo remédio para a ansiedade. Sei que neste assunto não sou a pessoa mais indicada para dar conselhos, mas os siga, filha, e tudo vai ficar bem.

Maria Luísa, sete anos… Em 2012, quando você chegou, eu me fiz a mesma pergunta: “O que eu devo fazer?” Eu não tinha as respostas, tá? E, às vezes, acho que ainda não tenho, mas o tempo, e esses sete anos, me trouxeram a certeza de que não importa a maré, tudo e tudo vai sempre ficar bem.

Leia bastante, tome água toda hora, escreva cartas, entregue-as, ouça música boa, corra pra longe de barzinhos com música sertaneja, perdoe o cansaço do seu pai, obedeça, nunca dirija depois de beber e não desista de mim.

Não importa quando for, filha, o dia que for, a hora que for, seu pai sempre vai estar lá por você. Nem sempre com as respostas, é claro, mas sempre com alguma gargalhada boba pra dividir com você.

Te amo. Feliz sete anos.

Desculpe esse monte de clichês, tá?

 

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