Já tomou o tarja preta hoje, meu bem?

Aquela menina tinha sérios e, provavelmente, irreversíveis problemas emocionais, sofria de ansiedade, estresse e com toda a razão: a vida era foda, mesmo pra quem amava boa música e tinha o violão como amigo confidente. Não dava pra não notar a existência dela.. Por alguma razão inexplicável, a gente se ligou

Não era só o cabelo meio ruivo que me chamou a atenção. Não. Tinha mais. Tinha uma tristeza no olhar, um jeito diferente de articular as palavras e uma existência que tomava conta da sala. Quando ela entrou, o brilho tímido de alguém que sabia o que queria era uma eterna novidade para todos os que estavam lá. Tinha algo a ver com tristeza, com histórias de constelações antigas, com universos paralelos, viagens no tempo e, claro, tinha algo a ver com uma beleza indescritível, clara, mas amarga. Não sei porque, mas tinha um amargor naquela existência. Trocamos duas palavras e assim ficou.

Meses ou séculos depois, voltamos a nos falar. Sem querer, percebi seus sérios e, provavelmente, irreversíveis problemas emocionais. Sofria de ansiedade, estresse e, obviamente, tinha todos os motivos do mundo pra isso: a vida, por si só, é um fardo, um peso e “tá todo mundo meio na bad”, ela disse. Concordei. Nossos diálogos eram rápidos, profissionais e, por vezes, até estranhos.

Quando notamos a estranheza um do outro, as tendências melancólicas e o amor pela música indie, nossas almas se entenderam e se misturaram. Do nada, ela me mandou uma canção do Daft Punk, respondi com uma do Two Door Cinema Club. E não paramos mais de trocar essas correspondências instantâneas via whats. Penso que cada uma das canções escolhidos por nós dizia algo sobre aquele exato instante em que o tempo tava parado só porque eu tava falando com ela. “Take me out”, “Instant Crush”, Changing of Seasons”.

Quis saber sobre as suas estranhezas. E ela me contou da barra que passava, dos desamores, das coisas que se quebraram e que não tinham mais conserto, de caixas que não deixavam a sua casa. Falei pra ela que não precisa falar sobre tudo, afinal, remexer no que está quebrado dói muito.

Ela disse que estava tudo bem, mas, no fim, me falou sobre os remédios tarja preta. Ninguém anda lá muito bem. E, de um jeito estranho, falar sobre os nossos problemas emocionais acabou se tornando a nossa graça e, pelo menos pra mim, um refúgio.

Sem terceiras ou quartas intenções, a chamei pra sair. O que eu queria mesmo era entender mais dessa estranheza que tinha dentro dela. Ela aceitou e tá cada vez mais perto a hora em que eu vou me ver perto dela, precisando parecer inteligente, precisando, desesperadamente, entender mais de música, afinal, além de tudo, ela é musicista.

O que fazer?

Já sei! Ansiolíticos!

A vida sem alguns remédios fica insustentável. Tenho medo, viu? Medo de estar aquém dessa existência paradoxal que é ela. Sim, um paradoxo do tempo, das estrelas, dos ventos do norte, das cidades, das estações que mudam, das paixões instantâneas, da poeira cósmica que insiste em não sair dos cabelos dela. Cabelos esses, que dizem muito mais do que eu sou capaz de compreender.

 

 

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