Que Raul esteja convosco; ele está no meio de nós

Em 2019, 30 anos depois de sua morte, Raul está mais vivo do que nunca, sua obra continua influenciando gerações e inspirando revoluções. O Maluco Beleza faria 74 anos nesta sexta; o maior artista que esse mundo já viu

Raul Santos Seixas nasceu em Salvador no dia 28 de junho de 1945. Neto de Raulzão e filho de Raul, Raulzito cresceu na capital baiana em uma família de classe média. O jovem teve um desempenho sofrível nos primeiros anos escolares; as notas baixas eram reflexo do desinteresse de Raul pelas matérias escolares: em vez de estudar, o menino sempre preferiu ouvir rock and roll e descreveu em uma de suas canções, “No fundo do quintal da escola”, um pouco do seu desânimo com o colégio:

“Enquanto você me critica, eu tô no meu caminho/Desde aquele tempo em que o resto da turma se juntava pra bater bola, eu já pulava o muro do fundo do quinta da escola/Não sei onde eu tô indo, mas sei que tô meu caminho/ Você esperando respostas, olhando pro espaço/ Eu tão ocupado, não me pergunto. Eu faço!” 

De fato, Raul estava no seu caminho. Na década de 60, a música já era o seu alicerce. Mudou-se para o Rio de Janeiro e começou a encantar artistas já consagrados como Jerry Adriani, que gravou “Doce, doce amor” e estourou no movimento Jovem Guarda.

Apesar do talento reconhecido, o sucesso de Raul não foi meteórico. O jovem artista se tornou produtor na CBS e trabalhou com artistas como Sérgio Sampaio. Somente num festival da canção, na década de 70, quando apresentou “Let me sing my rock and roll” foi convidado pra gravar e o reconhecimento veio. Nunca mais parou.

Sem perceber, Rauzito apadrinhou o gênero no Brasil.

Irreverente, desaforado, maldito e genial, Raul Seixas se tornou um dos maiores, se não o maior artista da história. Repare, não era o melhor cantor, nem o melhor músico, nem o melhor letrista; mas o conjunto de todas essas características, somado à irreverência, o transformam no artista genial que é. Poucos chocaram (e chocam) como ele.

O rei do rock brasileiro morreu em agosto de 1989. Sofrendo de diabetes e decidido a não parar de beber, Raul, que foi casado com cinco mulheres e acumulou centenas de amantes ao longo de toda a vida, morreu sozinho em seu apartamento no Rio depois de uma noite regada a álcool. As filhas do mestre Seixas quase não têm lembranças do pai; Simone Wisner Seixas, filha da americana Edith, nem chegou a conhecê-lo.

Destrambelhado, um anjo torto e inconsequente, Raul se tornou um deus no Brasil. Seu nome até hoje é cultuado. Morreu homem, virou lenda. Sua inquietude continua inflamando jovens, mudando pensamentos, salvando vidas – como lembrou o seu irmão Plínio Seixas, procurado por um empresário que pensou em se matar e desistiu depois de ouvir “Tente outra vez”.

Nesta sexta (28), Raul faria 74 anos. Fico me perguntando qual seria o posicionamento do roqueiro diante da situação política do Brasil. De certo, não estaria calado diante de tantas barbaridades. Cantaria SOS?

“E nas mensagens/Que nos chegam sem parar/Ninguém, ninguém pode notar/Estão muito ocupados/ Pra pensar/ Oh, seu moço do disco voador/ Me leve com você aonde você for//

Ou proporia mais uma vez “alugar o Brasil”?

“A solução pro nosso povo
Eu vou dá
Negócio bom assim
Ninguém nunca viu
Tá tudo pronto aqui
É só vim pegar
A solução é alugar o Brasil!…

Nós não vamo paga nada
Nós não vamo paga nada
É tudo free!”

Sua mensagem está mais viva do que nunca. “Todo homem tem direito de amar a quem quiser, de viver como quiser/ Faz o que tu queres, pois é tudo da lei/Viva a sociedade alternativa!” 

Raul, diferente dos mortais, resiste ao tempo, inspira novos artistas, teses musicais… É amado e odiado, exaltado, reverenciado e execrado. Artista brilhante, péssimo esposo. Um homem que decidiu não se apegar à vida e morrer do jeito que quis: na esbórnia, dormente, sem sentir as dores de um mundo tão incompreensível.

Feliz 74 anos ao deus que mudou a música brasileira. Que ele esteja convosco, ele está no meio de nós. Amém.

 

 

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